Cavalos

Por algum tempo na minha vida, estive muito focada em cavalos. Isso foi dos oito aos dezoito anos. Fazia Equitação, Volteio e lia muitos livros. Ganhei um cavalo que se chamava Brinquinho (não sei quem foi o cidadão que deu o nome) e viajava todas as férias para o sítio em Minas Gerais, onde ele ficava. Tinha as paredes do quarto forradas de fotos de revistas, quadros, figuras enormes de cavalos.

Brinquinho
Como íamos duas vezes por ano, Brinquinho não me aceitava de início. Eu oferecia espigas de milho, passava muito tempo escovando seus pêlos e crina, dava banhos e fazia-o correr com a guia longa em volta de mim. Só depois é que arriscava a cela, cabresto e finalmente eu o montava. Era sempre um momento de tensão, ele quase sempre pulava, coiceava, corria, e fazia questão de passar por baixo bem rente aos galhos de goiabeira, na tentativa de me derrubar. Bom, ele conseguiu algumas vezes. Eu apenas segurava nele e na cela com todas as forças, e esperava. Ele acalmava e oferecia diversos sinais disso. Eu já conseguia ler a linguagem corporal de quando estava cedendo, mas não sabia como fazer isto de forma mais branda. Como conseguir que me aceitasse sem coicear e sem tentar me expulsar de suas costas.

Quando o compramos, já era domado, e os métodos usados não foram nada ‘humanos’. Isto acontece muito ainda hoje em dia, infelizmente. Os cavalos são presa na natureza, além de extremamente sensíveis e reativos. Eu só posso imaginar o que este tipo de doma causou nele. Mas eu conseguia. Em dois dias ele estava me seguindo e quando ouvia minha voz levantava a cabeça e vinha.

Marcos a esquerda e eu e Brinquinho

Passei os melhores momentos das minhas férias no sítio, com ele. Apostávamos corrida com o cavalo do meu irmão, pelas vazias estradas de terra. Atravessávamos os riachos de água cristalina e andávamos quilômetros sem perceber. Ele era inteiro e às vezes eu passava apuros quando encontrávamos éguas no cio. Era muito difícil controlá-lo e então meu pai decidiu pela castração (ainda hoje usa-se métodos absurdos para castrar animais de fazenda). Quando eu fiquei sabendo já era tarde.

Fazia de tudo para conquistá-lo. O meu objetivo maior tinha o significado de um troféu: nadar com o Brinquinho na represa. Ele hesitava um pouco para entrar, e nessa hora eu já estava montada a pêlo. Nadávamos até quase não dar pé para ele, e ficávamos um tempo assim. Foram tardes maravilhosas.

Infelizmente não tenho fotos de quando nadávamos, mas essa ilustra bem.


Foto retirada daqui

Nestes momentos, eu me sentia muito próxima dele, é difícil explicar, é como se estivéssemos entendendo perfeitamente o que o outro queria ou pensava. Isso ficou marcado muito profundamente em mim, e quando estou com alguma dificuldade de comunicação com um animal, seja de que espécie for, me lembro dele e procuro entrar na mesma sintonia, em um estado de relaxamento e um ouvir silencioso. Funciona muito bem, pois consigo ler muito melhor os sinais que os animais mandam o tempo inteiro.

Sítio Mirante – Represa de Furnas

 

Com sua paciência e resiliência, Brinquinho me ajudou a descobrir minha verdadeira paixão: o comportamento dos animais e a utilização de métodos motivacionais para moldá-los. Foi por causa desta paixão, que decidi fazer Zootecnia.

Conheça mais sobre Monty Roberts, que mostrou que é possível ensinar cavalos sem agressões, sem dor e sem crueldade.

Conheça Stacy Westfall e o que ela faz com seu cavalo.

By | 2017-01-18T11:43:25+00:00 agosto 29th, 2008|Categories: Blog|Tags: |2 Comments

2 Comentários

  1. Flá 29/08/2008 em 23:11- Responder

    Não sabia dessa sua história com cavalos. Muito legal!

  2. Camila Sakavicius 05/09/2008 em 18:04- Responder

    Nossa Sá, eu não conhecia essa Stacy, mas ao ver o vídeo dela me deu até um arrepio, pois eu já fiz td q ela fez. Tudinho (menos ficar em pé em cima do cavalo, pois acho q nao ia dar certo… hehe).E é uma emoçao inexplicável, só sentindo, montando desse jeito para saber o que isso significa…Agradeço ao Carlos Taboga por ter me oferecido seu cavalo, para que eu tivesse uma experiência como essa.Uma pena que isso faz muitos anos, e na época, câmera digital era uma pequena fortuna, só quem tinha era meu pai e ele não emprestava de jeito nenhum… heheheSobre o Mont Roberts, prefiro nem comentar, o cara é um espetáculo, tem muito a ensinar!Cavalo definitivamente é tudo de bom!!!Meu cavalo era “pet”… hehe Era um fofo, me seguia para tudo quanto é canto… Queria que ele estivesse comigo até hoje….

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