Saiba o que a ciência moderna diz sobre os protocolos vacinais comumente praticados no Brasil.

De acordo com o atualizado documento de Diretrizes Vacinais divulgado em janeiro de 2016 pela Associação Veterinária Mundial de Pequenos Animais (AVMPA ou WSAVA) no Journal of Small Animal Practice, existem 3 tipos de vacinas:

ESSENCIAIS: São aquelas recomendadas para TODOS os cães. Protegem contra o vírus da cinomose canina, o adenovírus canino tipo I e variantes do parvovírus canino tipo 2. No Brasil a vacina contra raiva também é considerada essencial.

NÃO ESSENCIAIS/OPCIONAIS: São necessárias somente para os animais cuja localização geográfica, ambiente local ou estilo de vida os coloca em risco de contrair infecções por bordetella bronchiseptica, parainfluenza, adenovírus tipo II(*) e leptospirose.

NÃO RECOMENDADAS: São vacinas cujo uso possui uma base de evidências insuficiente ou até mesmo dados de que não funcionam, como a vacina contra giárdia e coronavírus.

Como é feita a vacinação no Brasil hoje?

No Brasil, a recomendação quase unânime dos médicos veterinários é que cães domiciliados, que chegam aos nossos cuidados com a idade entre 6-8 semanas, recebam:

  • 1 dose de vacina polivalente V6, V8 ou V10 a cada 2-4 semanas até a 16ª semana de vida ou mais, totalizando 3-4 doses ao longo deste período
  • 1 dose de vacina contra tosse dos canis intranasal (Nobivac KC ou Bronch-Shield III) ou injetável (Pneumodog ou BronchiGuard) junto com a primeira dose polivalente ou até mesmo algumas semanas antes
  • 1 dose de vacina contra a raiva normalmente aplicada junto com a última dose da V6/V8/V10 ou cerca de 30 dias após
  • A repetição anual de todas até o fim da vida do animal.

É importante compreendermos que os coquetéis vacinais V6, V8 ou V10, possuem em sua composição as vacinas essenciais (cinomose, hepatite infecciosa e parvovirose), não essenciais (leptospirose, adenovirose tipo II e parainfluenza) e não recomendadas (coronavírus).

Os produtos contra tosse dos canis possuem em sua composição vacinas não essenciais/opcionais (bordetella bronchiseptica, parainfluenza tipo II, adenovírus tipo II)

Se o cão chega na clínica com mais de 16 semanas de vida, sem nunca ter sido vacinado, em geral, a recomendação é:

  • 1 ou 2 doses de V6/V8/V10, sendo que no caso da administração de 2 doses, respeita-se um intervalo de 3-4 semanas entre cada aplicação
  • 1 dose de vacina contra tosse dos canis intranasal (Nobivac KC ou Bronch-Shield III) ou injetável (Pneumodog ou BronchiGuard) junto com a primeira dose polivalente ou até mesmo algumas semanas antes
  • 1 dose de proteção contra Raiva
  • A repetição anual de ambas até o fim da vida do animal.

Por que a comunidade científica mundial não recomenda o protocolo acima?

Algumas etapas deste protocolo estão de acordo com os estudos mais atuais da área, outras no entanto estão com décadas de atraso científico e tecnológico, podendo prejudicar seriamente a saúde do animal. Fora isso, este atraso leva a maioria de nós a investir dinheiro desnecessariamente em vacinas. Vamos entender o porquê desta conclusão.

O valioso documento criado pela Associação Veterinária Mundial de Pequenos Animais (AVMPA ou WSAVA) foi montado por dezenas de médicos veterinários e imunologistas acadêmicos fundamentados em aproximadamente 180 estudos científicos de países diversos como Estados Unidos, Alemanha, África, Holanda, Israel, Canadá, entre outros, além de utilizarem suas experiências clínicas. Ao estudar estas diretrizes, compreendi que o médico veterinário usuário da técnica de vacinação deve montar protocolos individualizados para cada cão que atende. Estes protocolos devem considerar 4 aspectos:

1- O desenvolvimento do sistema imunológico dos cães filhotes:

Dependendo da idade do cachorro, sabemos que de nada adiantará administrar vacinas. Os recém nascidos estão com seu sangue repleto de anticorpos provenientes da mãe e, se inoculamos a vacina, seus elementos serão combatidos por estes, não estimulando o sistema de defesa do próprio filhote. Por este motivo, recomendamos que o recém-nascido seja vacinado somente a partir da sexta semana de vida (M. J. Day. 2007; Ettinger, Edward C. Feldmann – 7ªed.).

Existem tecnologias, como a utilizada na vacina recombinante contra cinomose, que permitem que cães sejam vacinados contra esta doença em específico antes de 6 semanas de vida. Mas infelizmente AINDA não temos acesso a esta vacina isolada no Brasil.

2- A tecnologia utilizada na produção da vacina e como vai atuar no animal inoculado:

Este aspecto, em minha opinião é o mais importante, devendo ser completamente assimilado pelos veterinários e minimamente compreendido pelos tutores.

Quando o protocolo padrão que citei inicialmente foi desenvolvido, a tecnologia das vacinas não era tão avançada quanto hoje em dia.  Na década de 50 foram criadas as primeiras vacinas contra cinomose canina e elas não conferiam proteção por mais do que 12 meses. Por este motivo foi recomendado que a vacina contra a cinomose fosse repetida anualmente. Infelizmente, não houve ampla atualização técnico-científica no Brasil e essa recomendação parece ter sido generalizada para o protocolo como um todo. Desde 1950 até o dia em que as diretrizes vacinais foram lançadas publicamente pela WSAVA, em janeiro de 2016, as tecnologias empregadas na produção de vacinas avançou muito.

Hoje já existem tecnologias como: vacinas contendo vírus vivo modificado ou então agentes recombinantes, que são capazes de conferir proteção contra cinomose, hepatite infecciosa e parvovirose canina por um período que vai de no mínimo 3 anos até o fim da vida do animal, ou seja, possuem potencial para imunizar o animal contra estas doenças pelo resto de sua vida, sem a necessidade de novas aplicações (Bohm et al. 2004, Mouzin et al. 2004, Schultz 2006, Mitchell et al. 2012, Shultz et al. 2010). A literatura científica demonstra, de maneira consistente, que a proteção proporcionada pelas vacinas essenciais dura muito mais do que 1 ano. Esses avanços tecnológicos não são adequadamente considerados em protocolos de revacinação anual e é importante sabermos que o uso excessivo de vacinas tem potencial de provocar reações adversas imediatas ou tardias. Pesquisas relacionam o uso equívoco dessa terapia preventiva ao desenvolvimento, em animais predispostos, de doenças auto-imunes (Dodds, 2005; Day, 2004; Mellamby et al, 2004), tumores (Vascellari et al, 2003), poliartrite (Kohn et al, 2003), doença renal crônica (Newman et. al, 2002), epilepsia (Meyer et. al, 2003) entre outras.

No caso das vacinas opcionais/não essenciais, que protegem contra vírus e bactérias que causam doenças brandas e com tratamento eficaz, as tecnologias disponíveis atuam da seguinte maneira:

1- Tosse dos Canis: É uma vacina não essencial encontrada nos produtos BronchiGuard e Bronchi-Shield III da Zoetis, NOBIVAC® KC da MSD e Pneumodog da Boehringer Ingelheim. Pode ser útil em casos de cães vivendo em ambientes saturados como canis ou lares temporários, que frequentam exposições e provas esportivas caninas. Confere proteção por até 1 ano.

2- Leptospirose: Presente nas vacinas múltiplas V8/V10 e na Guard-Vac LCI/GP da Zoetis. Protege por até 1 ano e devem ser realizadas somente em cães que correm riscos reais de infecção pela doença. É a vacina que mais leva a reações adversas. Isso ocorre devido a presença de adjuvantes, substâncias que “irritam” o sistema imunológico para potencializar a produção de anticorpos, por este motivo é de vital importância ponderar a necessidade de sua aplicação.

3- Parainfluenza: Está presente nos coquetéis V6/V8/V10 e na vacina contra tosse dos canis. Confere proteção por no mínimo 3 anos (Schultz et al. 2010).

4- Adenovirose Tipo II: Encontrada nas polivalentes V6/V8/V10, Bronchi-Shield III da Zoetis e NOBIVAC® KC da MSD. Confere proteção por no mínimo 3 anos.

Sobre as vacinas não recomendadas, os maiores estudiosos de imunologia e medicina veterinária não recomendam a vacina contra giárdia devido a baixa eficácia preventiva, curta duração de proteção (até 1 ano) e porque a doença tem bom prognóstico e tratamento eficaz. A vacina contra coronavirus não é recomendada simplesmente porque esse vírus acomete somente cães filhotes de até 8 semanas de idade, exatamente no período em que se inicia o ciclo de vacinas. Por que administrar uma vacina para combater uma doença que não ocorrerá? Além disso, de acordo com o documento de diretrizes vacinais:

“Não há evidência suficiente de que esta vacina é protetora, ou que de fato o coronavírus entérico seja um patógeno canino significativo. Foi relatado que as cepas variantes deste vírus causam doença sistêmica grave em cães adultos e filhotes em várias partes do mundo, mas não está claro se as vacinas disponíveis protegem contra essas variantes.”

Considerando que no Brasil os imunizantes massivamente utilizados são polivalentes (V6/V8/V10), contendo em um único frasco vacinas essenciais, já atualizadas com tecnologia avançada o suficiente para proteger os cães por no mínimo 3 anos, vacinas opcionais / não essenciais e, em alguns casos, vacinas não recomendadas (coronavirus) que protegem os animais pelo período de tempo anteriormente citado, fica no ar uma pergunta: é possível, no mercado brasileiro, adquirir vacinas isoladas de elementos essenciais e não essenciais a fim de vacinar o cachorro somente com aquilo que realmente é necessário?

Infelizmente ainda não contamos com vacinas essenciais ou não essenciais isoladas por aqui. Acredito que precisemos disseminar muito estas informações a fim de que o valor cobrado pelos agentes infecciosos isolados seja viável para a realidade dos brasileiros. Quanto mais demanda, menor o valor.

No caso das essenciais, a mais “isolada” disponível é a NOBIVAC® Puppy também conhecida como V2 da MSD. Ela contém agentes infecciosos vivos modificados, sendo capaz de conferir proteção por no mínimo 3 anos para parvovirose e cinomose canina. Não há vacina isolada para hepatite infecciosa.

No caso das não essenciais, temos vacinas com menor quantidade de agentes infecciosos que protegem contra:

  • Leptospirose (Guard-Vac LCI/GP da Zoetis). Esta é totalmente isolada.
  • Doenças respiratórias causadas pela Parainfluenza Canina, Bordetella Bronchiseptica e Adenovirus tipo 2 (BronchiGuard e Bronchi-Shield III da Zoetis, NOBIVAC® KC da MSD e Pneumodog da Boehringer Ingelheim)

De posse das informações compartilhadas até este momento, é importante você, leitor, saber que mesmo com poucas vacinas isoladas, é possível montarmos um protocolo vacinal minimalista, focado na situação do seu cachorro, considerando as mais avançadas evidências científicas.

3- A importância de realizar testes sorológicos nos animais vacinados:

Na hora de montar um protocolo particular, nós, veterinários, devemos utilizar de outra tecnologia relativamente nova no Brasil: a titulação de anticorpos / testes sorológicos.

Titular anticorpos é medir a concentração de anticorpos IgG, específicos contra uma doença, circulantes no sangue do animal. Anticorpos são os elementos de defesa produzidos pelas células de memória (fábricas de anticorpos) originadas pela vacinação ou por infecções naturais que foram vencidas no passado. Se o resultado do exame for positivo, significa que estes elementos foram detectados e que o animal se encontra protegido.  Esta é a prática mais recomendada, já que gera uma evidência palpável da necessidade ou não necessidade da revacinação. Realizando o teste, evitamos que animais sejam vacinados desnecessariamente e consequentemente reduzimos as possibilidades das reações vacinais já citadas.

Ele servirá de suporte nos seguintes momentos da vida de um cachorro domiciliado:

  • Quando filhote, 2 semanas após receber a última dose da vacina múltipla, a fim de avaliar se o animal realmente adquiriu a memória de defesa contra a cinomose canina, parvovirose e hepatite infecciosa. A importância deste procedimento reside no fato de que possibilita identificar indivíduos geneticamente incapazes de responder a vacinas. De acordo com a opinião dos especialistas que desenvolveram as diretrizes mundiais, 1 em cada 5.000 cães não desenvolve imunidade ao vírus da cinomose, 1 em cada 100.000 cães a hepatite infecciosa e 1 em cada 1.000 cães ao da parvovirose. Isso independentemente da qualidade da vacina e de quão bem foi aplicada.
  • Se o seu cão é adulto e já está sendo vacinado há anos, realize o teste na próxima visita ao veterinário que tenha como objetivo a revacinação anual. Caso o vacine, volte a realizar o teste dentro de 3 anos e depois a critério do médico veterinário responsável,
  • Se acabou de adotar o cachorro e não sabe se ele está imunizado contra as doenças mais letais, realize antes e se necessário, depois, para avaliar se ele tem a capacidade de desenvolver imunidade.

Em relação a vacinação contra a raiva, sabemos que existem tecnologias que conferem proteção por cerca de 3 anos e há também a possibilidade de titulação de anticorpos a fim de saber se o animal gerou memória imunológica ou ainda está protegido contra o vírus. Apesar disso, por lei, somos obrigados a realizar a vacinação anual. Os testes sorológicos não são aceitos para comprovar que o animal está protegido quando os levamos para viajar de avião dentro do Brasil. O exame somente é aceito em alguns outros países.

Os testes de sorologia não têm grande utilidade na avaliação da necessidade da repetição do uso de vacinas não essenciais / opcionais. Para sabermos se é preciso vacinar ou revacinar o cachorro para leptospirose, tosse dos canis entre outras, ele deve passar por uma avaliação minuciosa com o profissional com o objetivo de definir se há necessidade. Isto nos leva ao quarto aspecto avaliado.

4- Localização geográfica, ambiente local e estilo de vida do animal:

De acordo com o documento de diretrizes vacinais:

“As vacinas não essenciais são aquelas cujo uso é determinado com base nos riscos da exposição geográfica ou do estilo de vida do indivíduo e em uma avaliação da relação risco-benefício (isto é, o risco de não ser vacinado e ser suscetível ou o risco de ser vacinado e apresentar uma reação adversa comparado ao benefício de ser protegido contra a infecção em questão)”. (Journal of Small Animal Practice • Vol 57 • Janeiro de 2016 • © 2016 WSAVA)

Quando avaliamos a necessidade ou não de um animal receber uma ou mais doses de vacina não-essencial o primeiro elemento considerado é se o animal vive ou frequenta ambientes possivelmente contaminados ou frequentados por animais infectados com a doença em questão:

  • Leptospirose: O cachorro vive em casa ou região com infestação de ratos? Passeia em áreas alagadiças, podendo entrar em contato com água contaminada? Se sim, estas áreas alagam o ano inteiro ou somente nas estações e períodos mais chuvosos? Pretende mudar para local com estas condições? Você costuma deixar o cachorro entrar em poças, caçar em matas ou dormir fora de casa? Costuma viajar para locais com as condições acima?
  • Tosse dos canis (bordetella bronchiseptica, parainfluenza e adenovirose tipo II): Seu cão vive ou frequenta rotineiramente ambientes com aglomeração de cachorros (por isso tosse dos canis)? Utiliza objetos de outros cães que vivam em tais condições? Exemplo: frequenta o cachorródromo e brinca com bolinhas de outros cães, bebe água de origem desconhecida. A região onde vive tem mudanças drásticas de temperatura? Quais produtos de limpeza usa na sua casa? Sua casa tem muita poeira? Estas duas últimas perguntas são importantes pois estes elementos irritam a mucosa olfativa e respiratória prejudicando o sistema de defesa natural da região.

A avaliação da necessidade de um animal tomar a vacina contra giárdia não será abordada nesse texto. Somente consideramos que ela não é recomendada, independente das condições que o animal viva.

Evitar situações de contaminação e adotar procedimentos de higiene básica são condutas fundamentais para tornar o ato da vacinação desnecessária. Caso não consigamos viabilizar um ambiente ideal para um cão que vive, por exemplo, em uma residência constantemente infestada por ratos, infelizmente, a vacinação anual ou semestral contra a Leptospirose será importante para sua sobrevivência.

Por fim, devemos nos conscientizar sobre o que faz um cão sustentar seu sistema de defesa e de limpeza fortes, resistentes a todo tipo de obstáculo. A adoção de uma rotina com atividades e práticas que favoreçam o bem estar físico, emocional e mental do animal deve ser foco, não só para reduzir o número de vacinações mas também para inviabilizar o desenvolvimento de outras doenças.

Nutrição e fonte de água de elevada qualidade, rotina de atividades física, social e cognitiva, ambiente adequado para relaxamento e sono. Todo tipo de cuidado que aprimore o nível de bem estar é essencial para um cão ser feliz e estar sempre bem disposto.

O QUE FAZER COM ISSO TUDO?

Recomendo que converse com seu médico veterinário a respeito da adoção de protocolos minimalistas e de testes sorológicos na rotina de manutenção da saúde do seu cão. Mostre a ele este artigo. Reforce a importância da atualização de protocolos de vacinação polivalente anual, sustentada nas abundantes evidências científicas. Está claro que os excessos podem interferir drasticamente na integridade e bem-estar animal. Não só o equilíbrio físico é impactado, mas também o desenvolvimento social, já que algumas práticas atrapalham o período de socialização de filhotes, tema que será abordado junto com o protocolo vacinal que entendo ser ideal, em outro texto.

Um abraço,
Alberto Brasil Nogueira – Médico Veterinário especialista em comportamento clínico animal.